12
jul
10

I could kill you sure, but I could only make you cry with these words…

Ele nunca prestou. Aprendeu a prestar por ela, ou pelo menos, fez de conta pra ele mesmo e pra ela que tinha aprendido. Um dia fez besteira, ela chorou, esperneou, sofreu e acabou. Porque ela sempre acreditou num amor absoluto, imortal, perfeito e incapaz de aceitar traição. Ele traiu. Ela não entendia. Dois anos de namoro, caiu na rotina? Caramba! Caiu na rotina? Não pode. Tinha de ser outro motivo. E era, o motivo era não ter motivo. O motivo era única e exclusivamente a vontade dele de trair. O motivo era confirmar a incapacidade histórica do homem de ser fiel e se controlar sexualmente.

– Eu te amo.
– Ama nada. Ama como ama todas as outras que saiu enquanto estava comigo, né? Me poupa!
– Não, você sabe que não é. Só aconteceu uma vez, e não tinha sentimento, foi só… físico!
– Que se controlasse! Não venha com esse papo machista de que o homem foi feito pra dar continuidade a espécie e que por isso tem de acasalar com um montão de fêmeas… pra cima de mim não!
– Não importa o que me levou fazer… importa é que amar mesmo eu só amo você! E sem você, não dá, amor…
– Claro que importa! Pensasse nisso antes de fazer. Eu sempre fui clara, você podia fazer o que quisesse por aí, contanto que fizesse bem feito para que eu não soubesse. E que se eu soubesse, nunca iam existir condições de continuarmos como antes, tudo ia mudar. Eu te avisei Lucca!

Ela levantou. Ele ficou por um tempo sentado ali ainda. Ambos foram para as suas casas, mesmo que dissessem aos outros e a eles mesmos que estavam bem e que não queriam falar ou pensar no assunto, era só o que faziam. Como se não bastasse, no dia que os amigos conseguiram arrastá-los de casa para uma boate, acabaram se encontrando. Maldita coincidência! E era como sempre, desde que acabaram, farpas pra todo lado. Qualquer mínimo comentário virava uma alfinetada de um para o outro. Ele não aguentava mais, puxou ela num canto e disse que precisavam conversar. Ela geralmente diria que não, não iria fazer o que ele queria. Mas sabia que precisavam mesmo conversar.

Saíram da boate, andaram um pouco e estavam na beira mar. Eles estavam de mãos dadas, sem se dar conta de que não precisavam mais estar, já tinham saído da boate lotada, já tinham atravessado a rua, agora só restava a calmaria, uns quiosques de água de coco fechados e um banco de frente pro mar, onde sentaram. Ele pensava no que diria primeiro. Ela fez menção de falar, mas ficou só no gesto labial, a voz dele cortou qualquer som que ela fosse emitir.
– Eu sempre penso na gente.
– Também.
– Penso em você, sabe Holly, talvez eu não seja o príncipe encantado perfeito que você sempre sonhou, mas sou um “Paul-Fred” que te ama muito.
– “Breakfast at Tiffany’s” é covardia!
– Eu podia sentar aqui e dizer que eu não sinto nada, dar uma de superior. Mas seria mentira. O que eu quero, na verdade, é te mostrar que as pessoas erram e isso é natural. A vida não é um conto de fadas.
– Eu não acho que seja!
– Eu posso também falar sobre uma garota que acredita que existe amor em tudo e em todos, que no final, tudo dá certo…
– Pobre coitada! Você sabe, nós não temos chance… não vai dar certo!
– Não seja boba! “They always reach a sorry ending, they always get in the end…”(cantarolou).

Era a música preferida dela, ele que mostrou a ela pela primeira vez, dizia que lembrava a história deles. Ela começou a chorar. Ele também. Essa era a hora em que não tinha ninguém, só eles dois. Eles não precisavam fazer de conta que estava tudo bem. Ela percebeu que ele também estava chorando, eles se deram um tempo pra respirar, sem nada dizer até ela quebrar o silêncio.

– Tá pensando em quê?
– No quanto eu gosto de você, e o quanto isso me assusta. Nunca tive tanto medo de perder.
– Eu sei como é… Mas, quando eu disse pra você que era melhor que a gente acabasse, você não ficou mal. Acho que eu não sou pra você o que você é pra mim. Você simplesmente se virou e saiu…
– Não quis chorar na sua frente, e eu menti dizendo que ia pra uma festa. Não queria mostrar como tava me sentindo.

Começou a chover, nenhum dos dois se fez menção de sair de lá. Continuaram sentados no banco, no meio da chuva. Ele agora pensava nas poucas vezes em que se apaixonou, lembrava de cada uma das vezes e nenhuma foi assim, ele nunca tinha sentido isso. O coração batendo assim, desse jeito, não era normal. A chuva molhava o rosto dela, os olhos estavam borrados, como ele adorava os olhos borrados dela. Ela esfregou o nariz e olhava fixamente pros próprios pés, pensando se dizia ou não o que tinha na ponta da língua.

– Acredito mesmo em contos de fadas. Não nessa coisa idiota de “Disney”, mas acho que cada pessoa pode encontrar sim seu final feliz, se fizer acontecer. Não adianta esperar as coisas caírem no colo, um príncipe não vai aparecer num cavalo, com o cabelo sem um fio fora do lugar e roupa impecável, pra me salvar de algum problema em que me meti. Mas sei que vai ter algum cara, cheio de defeitos, humano, despenteado, correndo, desesperado só de imaginar que qualquer coisa de ruim pode ter acontecido comigo.
– Ainda acho que você é muito ingênua. Mas, apesar disso… já tem esse cara, e você sabe disso.

Ela pegou o celular na bolsa, subiu no banco e começou a rir já antecipando a graça do que ia dizer:
– Pois é pseudo-príncipe, eu poderia te matar com essa espada… Mas, já dizia o herói: “um adeus é mais poderoso que espadas”! Eu poderia te matar com toda certeza, mas eu posso só fazer você chorar com estas palavras…
– Nem comece princesa! Você seria incapaz de machucar uma formiga.
– Será? Acho que sou bem malvada.

Os dois riram, as gotas de chuva pingavam do cabelo dela no rosto dele, ele fez uma careta já conhecida e que ela adorava, quando uma gota caiu em seu olho. Num pulo, ela ainda rindo sentou de volta no banco.

– Malvada? Ai ai, Cami…
– Acho que nós devíamos ser amigos.
– A gente já é.
– Não, tô dizendo… eu acho que a gente devia esquecer essa coisa de namoro, e ficarmos sendo só amigos.
– Ah não, sem essa.
– É, acho que não.
– Ufa.
– Amigos com benefícios? É brincadeira!
– Acho que devemos continuar como éramos.
– Talvez, quem sabe?

Riram do próprio futuro. Futuro este que estava sendo traçado numa conversa de tom casual, despropositada. Riam achando que o destino ainda não sabia como seria. Mal sabiam eles que quem ria dos dois, era o destino, deixando que eles pensassem que estavam resolvendo alguma coisa, mas já sabendo como ia acabar. Continuava escuro, a chuva estava diminuindo, agora só chuviscava, mas o vento tinha aumentado, o que fez eles juntarem ombro com ombro. Numa tentativa discreta de se aquecerem, ou se aproximarem. O tempo voou, já era pra estar bem claro na praia, mas não estava, culpa da chuva. Ela usou a chuva como motivo de resmungar com ele.

– Acho que vou ficar doente, e se eu ficar, a culpa é sua.
– Minha? É cada uma… até parece que eu te obriguei a ficar aqui comigo.
– É devia ter ido embora.

Ela levantou, bolsa e sapatos nas mãos e foi andando no sentido contrário a praia. Ele olhou, sem acreditar que ela estava mesmo indo embora. Ele sabia que se ela fosse, as coisas iriam complicar mais ainda. Mal sabia ele que ela só estava brincando, fazendo de conta que ia embora, mas não ia. Ela estava de costas pra ele, de frente pra pista, ele correu e ficou na frente dela parado. Ela se perguntando o que era, não deu tempo nem de perguntar, ele pegou ela pela cintura e pendurou no ombro. Carregou ela até a praia. Ela esperneava berrando “me larga, Lucca” e ele ria do esforço inútil dela. Ela usou todas as forças pra chutar e mandar ele largar, até cansar e ficar lá, inerme, pendurada no ombro dele.

– Parou?
– Se eu disser que sim, você me solta?
– Só se você prometer ficar perto.
– Tá, eu não tenho muita escolha mesmo! Você vai me deixar em casa, tá pensando que eu vou voltar como?
– Não to falando disso…
– Acho que eu vou sentir falta.

Colocou ela na areia e sentou junto, com o braço por cima do ombro dela.

– Você não vai! Eu já disse, você vai ficar por perto, não vai? Por mais que dê tudo errado mil vezes, no fim as coisas se acertam. E se elas se acertam é porque ainda tem amor pra recomeçar. A gente vai passar por isso juntos.
– E se não tiver mais amor pra recomeçar?
– Você quer que eu acredite nisso, ou você que precisa acreditar? Sempre vai ter, nossa vida é assim. E não tem amor que seja igual ao outro. Nosso amor é assim, porque nós somos assim, se um dia a gente mudar, ele vai mudar também. O que importa é que a gente fique junto. Eu cuido de você, você cuida de mim. E é assim que vai ser, pra sempre!
– É, eu não sei não.
– Princesa?
– Oi…

Ela ganhou um beijo. Um beijo digno de seus contos de fada favoritos. Um beijo digno de “Breakfast at Tiffany’s”. Um daqueles de “A Walk to Remember”, ou sei lá o que. Um beijo melhor que todos aqueles, porque esse era dela. Não importa se ela era mocinha, princesa ou qualquer coisa assim. Na vida real a gente não divide as pessoas em mocinho e mocinha ou vilão e vilã, elas são um pouco de cada, quando tem que ser. O que importava pra ela é que os sentimentos não eram traídos, o amor dele seria sempre dela e o dela seria sempre dele. Não tinha a ver com quantas pessoas eles se encontravam por aí sem que o outro soubesse. Eles realmente se amavam, do jeito deles, mas se amavam.


2 Responses to “I could kill you sure, but I could only make you cry with these words…”


  1. 1 vercila
    1 de agosto de 2010 às 12:50 AM

    Incrível… a capa é moderna, mas o conteúdo é o mesmo: mulher é feita de idota e termina recapitulando por conta de uma argumentação pobre e um pouco de chuva. “passar por cima disso juntos?” Oi, quando traiu eles estavam fazendo isso juntos? Meu cérebro é mais precioso que isso.

    • 4 de agosto de 2010 às 7:46 PM

      Bom, nem sempre termina como todo mundo quer né?! Hahahaha.
      Mas, se você der uma olhada nos outros textos vai perceber que a maioria das minhas personagens não deixaria barato esse tipo de coisa.


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