Arquivo para maio \31\UTC 2010

31
maio
10

Dois copinhos azuis.

 

Comemorar seu aniversário numa boate pode não ser uma boa pedida. Mas, mesmo assim você insiste e ainda leva de arrasto numa lista quilométrica uma boa parte dos seus amigos. Sua entrada é free, mais perigoso ainda, porque no fim da noite o que você pagaria na entrada acaba virando mais um drink, ou dois. E lá vai você, é o SEU aniversário, esse caso pede um belo vestido novo e um salto altíssimo e lindo que você viu no começo da semana na vitrine daquela loja caríssima.

E você sai de casa faceira estreando seu vestido, seu sapato, com unhas feitas, maquiagem sem nenhuma falha e com várias borrifadas dos seu velho e preferido “Amor Amor – Cacharel”. Dois copos de “Pisco Sour” antes de sair e pronto, vai piscar o resto da noite. Na bolsa muitos sorrisos, umas mentiras pra contar, o comprovante de reserva da minha mesa, celular, identidade, dinheiro e cartão de crédito.

Chegando lá, a fila de sempre, quilométrica. Abri um sorriso, pensando: “hoje vou passar na frente de todo mundo, HAHAHA”! E me dirigi a fila VIP. Dei meu nome, sorri pro rapaz com a lista na mão, que me colocou para entrar primeiro. Era hoje, eu queria mesmo desopilar e beber, beber pra esquecer, pra comemorar, pra cantar e dançar.

Depois de muita insistência, uma amiga me convenceu a tomar um drink que era especialidade da casa, como você deve imaginar, eu não lembro o nome. Lembro que era muito bom, muito forte, e muito caro.
– Você vai pagar quase vinte reais num drink só?
– Claro que vou, só hoje!
– Então tá!
E com sorrisos no rosto nós duas pedimos o tal drink, não me pergunte também o que tinha dentro dele, que eu não vou saber responder! O que eu sei é que era muito bom, fazia jus a fama e compensava o preço. Dois copinhos com qualquer coisa azul, dois copinhos de perigo, dois copinhos de estrago. Não adianta, não lembro o nome, já vasculhei toda a minha memória.

Do “drink misterioso” fui pra Ice, depois qualquer outra coisa com Vodka. Todos os pretendentes que eu mentalmente tinha selecionado, pouco a pouco fui descobrindo que tinham um passado negro. Enquanto eu ainda selecionava alguma coisa, dizia “não” a quem não valia a pena. Mas depois de certa hora, não dá, você acha que o mais ou menos é o príncipe encantado.

Andamos para um lado e para o outro do lugar, que é mais apertado do que um banheiro de ônibus de passeio do colégio. Lembro que ainda me veio esse pensamento, no meio da confusão: “ah! Saudade do colégio! Saudade nada, isso aqui é bem melhor que o banheiro do ônibus de passeio do colégio!”.

Ri sozinha e continuei andando no meio do povo, sem muito filtro soltei um: “CARALHO! Que aperto”. E, nessa hora, todo mundo mais pra lá que pra cá, um cara se vira pra mim e diz: “Menina, que boca suja”, sorrindo. E que sorriso! Ai ai ai. Não conseguia pensar em nada, nadinha de nada: “Desculpa, hehe”. E fui empurrada pelas pessoas, para longe, bem longe dele. Triste, hm… Não. 5 segundos depois, eu já nem lembrava dele e partia para mais uma parada no bar. Eis que a bandinha começa a tocar beatles e no meio da cantoria encontrei outra amiga, que queria porque queria tomar uma tequila.
– Eu não sei tomar Tequila! Não tenho coordenação motora! Ainda mais agora… Depois disso tudo.
– Vaaamo, consegue sim. Vaaai! Vamo vamo vamo.
– Eu juro que eu… tá vai! Vamo tomar.
Lá fomos nós de tequila!

Paradinha no banheiro. Todas recompostas? Lá vamos nós de novo! E no caminho do banheiro pra mesa, foram pedidos de casamento, de namoro e beijinhos soltados pra todo lado. Cruzes! Resolvemos que era a hora do Sake. Alguma das meninas berrava: “Gosto de pão”! Não lembro exatamente quem. E todo mundo ria. Depois de muitos “eu amo vocês, amigos lindos”, resolvi voltar pra Vodka.
Era a hora do funk, e alguém pediu mais uma Tequila pra acompanhar, esse alguém foi seguido pela maioria. Funk pra lá e pra cá, num canto escuro da boate encontro o cara do “CARALHO”, sim, o que me chamou de boca suja. Calminha aí! Estava ele, num canto se agarrando loucamente com uma baranga. Gargalhei com direito a barulho de porco e tudo, e apontei mostrando para as minhas amigas, rimos juntas. “O que a bebida não faz, o desespero de fim de noite faz”!

Encontrei outra amiga, dessa vez fomos de Chocolate Martini e nos lamentamos da falta de qualidade dos homens em Recife. “Se é bonito tem namorada, ou não presta. Se é bonito e presta, é gay”! Rimos um bocado, e em menos de cinco segundos me aparece um, sorridente. Ele se aproximou mais ainda e perguntou meu nome. E eu disse! Pensei: “problema nenhum, se ele lembrar disso amanhã, não vai saber escrever meu sobrenome mesmo”! Não podia deixar de soltar uma bobagem:
– Tu não vai lembrar disso amanhã! Hahahaha.
– Hahahaha, vou sim!
– Se tu lembrar, te dou um prêmio.

E voltei ao bar com as meninas para fechar com chave de ouro, ou seja, o drink da fadinha. Balanço final: Telefonemas no meio da madrugada, muita sms, muitos “eu amo vocês, lindinhos”, e pra fechar a noite (ou começar o dia), uma paradinha no Mc Donald’s. Cheguei em casa com um little pony cor de rosa na mão, sem dinheiro, com restos da minha maquiagem, conta do celular estourada, mas muita história pra contar. E o que aconteceu nesse sábado ficou só na memória(graças a Deus) de quem esteve lá, não se sabe de registros fotográficos(Amém!).

Ah, e se você ficou curiosa(o), o cara lembrou, conseguiu escrever e me achou na internet! Agora, se ele ganhou ou não um prêmio, bom, isso fica pra outro post.

24
maio
10

pra sua coleção.

natportman

Você é sempre assim, instável, diferente, desse tipo, que conquista dizendo não querer, mas na verdade, nós dois sabemos que você quer. Um dos piores cafajestes já existentes, aquele tipo que alega ser cafajeste, tendo boa intenção, e que na verdade, é muito pior, sem pudor, sem amor, sem sentimento… É, você foi me dando palpites, me mostrando atalhos sobre seu jeito de ser, como um livro complicado que é, e que ainda não terminou de escrever, me dando apenas frases soltas, que me custaram muito tempo, e lágrimas para te entender… É, só você tem esse poder.

Quando aparece, quer me monopolizar, meu amor tem que ser só seu; porém, já te disse, eu te amo, só que não te amo pra querer te ter só pra mim, porque sei que você já ama outra (ou outras), e não posso exigir monopolio, eu sou assim, insegura, pessimista, e também, nunca te quis tanto assim. Acho que essa é minha sorte, eu ter me protegido, ter me precavido, me impedido de deixar esse sentimento aumentar, veja bem, se te amo assim, do jeito que somos, imagina se fossemos um casal ‘normal’, você me teria não só na mão e no coração (que você já tem), como teria numa gaiola, presa para quando você quisesse brincar de conquistador de corações; E se meu amor não for só seu, você fica estranho, não reage bem, e às vezes, resolve me conquistar mais ainda. Me pergunto se o destino foi cruel ou não, em me apresentar a você.

Nos viciamos mutuamente no contato diário, no carinho, nos abraços, nas conversas, nos conselhos, nas cantadas, e foras. Você parecia saber como fazer, sem ter noção do que fazer, e acabou dando no que deu, no que somos.

E ai, você desaparece, me deixando com um buraco no peito, buraco que não pode ser preenchido por outro, que por você ter um coração deformado, acabou por deformar o meu, e agora, eu separei um pedaço (bem grande) só pra você, só pra nossa relação, e eu tenho medo, que você decida realmente desaparecer, decida que não sou mais importante pra você, porque eu sei que você já fez isso com outras, você nunca me disse, mas é minha intuição, e ela, quando se trata de coração, não erra.

Te vejo errando mais uma vez, não tenho porque me meter, afinal não é pecado, é seu jeito de ser, um jeito que você me fez amar, só que eu tenho medo, que esse seu jeito (de viver, de sonhar), acabe fazendo outra pessoa sangrar, como eu sangro, toda vez que você some de mim, e depois volta com juras de amor, dizendo que sempre terei meu espaço em você, mas que espaço é esse? Já que existem tantas outras, e no minimo duas com posições superiores a minha? O pior é que você sabe que está errando, admite isso, com toda a convicção do mundo, e dá esse sorriso encantador, dizendo ‘o mundo é assim mesmo, não existe ninguém perfeito, esse é um dos meus defeitos, e não quero modificá-los’ na maior cara de pau, sabendo, que lá no fundo, você me convence, que errar, nem é tão ruim assim… Logo, me fazendo errar ao me entregar para você.

E então, como eu já sabia, mais uma mudança. Você percebeu? Está fugindo da minha vida, e o pior, está fazendo isso de forma lenta… Eu deveria te expulsar de vez não é? Mas eu também não tenho juízo no coração, por isso, se estiver perdido, é só avisar, que eu te mostro o caminho de volta… Eu sei que sou louca, mas a insanidade, nessa situação faz todo o sentido! Estou aproveitando cada segundo, antes que isso aqui vire uma tragédia.

Se quiser, pode procurar uma timbre mais timido que o meu quando estou com vergonha das suas cantadas, ou um sorriso mais belo que o meu, quando fico escarlate analisando seu sorriso, porém, o que você quer, na verdade ainda está em mim, logo, não adianta procurar muito, eu sempre estive aqui, só você não ainda não percebeu isso. Todas as minhas amigas vivem me bombardeando com perguntas sobre ‘nós’, e eu digo que somos amigos que se querem muito bem. Elas não sabem, nem você, mas quando você se vai, e leva o ‘s’, mas ainda resta o ‘nó’, que deu no meu coração.

E mais uma vez, você volta, só que dessa vez, eu estou preparada, mesmo que não consiga resistir, vou te encarar nos olhos, e fingir que nada aconteceu… Só que você me vê vermelha e acha graça, só que sei que não ficarei bem na sua coleção de corações, você o deformou, para encaixá-lo no seu coração, e agora, ele não tem valor nenhum, a não ser pra mim. O deixa assim, pairando no ar, sem nada, sem graça, só com esse amor tortuoso, e meu espirito está assim cansado, intacto, calado, só inala, exala, e guarda você.

Se pudesse realizar um desejo, queria que só por hoje não mais te ver… Gostaria de sumir, desaparecer, passar por ti, e não consegui te sentir, não ansiar por esse sorriso torto e simétrico, nem branco nem amarelado que faz minhas pernas tremer; só por hoje, não vou tomar minha dose de você, quero afastar essas borboletas do estomâgo que começam a voar quando sinto teu abraço…

Sabe, eu cansei. De chorar feridas que não se fecham mais, de cicatrizes sempre abertas e fechadas por um dono que nem sabe se quer meu bem ou mal. Apenas me quer, pois é egoísta o bastante para admitir que me quer, e mentir dizendo que me ama ao pé do meu ouvido.

Afinal, eu sou tenho apenas essa Utilidade para você não é? Não, só por hoje, quero ficar longe de você.

E essa Abstinencia, uma hora, vai passar.

Créditos a Aline Mariz, já que parafraseei alguns dos seus belos textos, lá do Algumas Palavras

17
maio
10

Embora haja tanto desencontro pela vida.

 

Observadora. Desde criança inquieta, agitada e curiosa. Nunca consegui sentar em algum lugar e ficar quieta, me concentrar apenas em comer ou em ler uma revista quando ao meu lado passam inúmeras pessoas completamente diferentes. Faziam poucos meses que eu havia me mudado, mas a presença dele e dela era constante no meu dia a dia. – Dele e dela para que fique claro que não eram um casal para que eu chamasse de “eles”.

Eu comecei a observar os dois há algumas semanas. Resolvi mudar de mesinha no café, meu ângulo de visão me permitia ver ele ou ela. Dessa vez, sentei em frente aos dois. Eles estavam sentados de costas um para o outro, ela pediu e ele também, quase no mesmo momento. A comida dela chegou primeiro, mas ela estava no celular, então chegou a comida dele. E ao mesmo tempo ambos desenrolaram os talheres do guardanapo e forraram as pernas com o mesmo. Pegaram seus talheres e começaram a cortar seus mistos-quentes, e foi aí que eu percebi o pedido dos dois era o mesmo.

Aos poucos fui criando uma história pra eles, dei nome, sobrenome, endereço, e criei mentalmente várias formas para que eles pudessem se conhecer. Nenhuma acontecia. Todo dia era assim, eles chegavam ao mesmo tempo, ela pela porta de trás, ele pela da frente. Ela virava a esquerda e ia direto para sua mesa, ele virava a direita e seguia reto para a sua. Sentavam sempre um de costas pro outro e repetiam o ritual de alimentação: pedido, guardanapo no colo, talheres, misto-quente, jornal, café, levanta, paga, agradece, e sai. Sempre tão concentrados em suas próprias vidas que nunca pararam para observar o mundo ao redor.

Vidas tão paralelamente idênticas. Eu não podia assistir a isso tudo sem fazer nada. Pensei em como poderia ajudar, queria que os dois se conhecessem. Eu já tinha definido que os dois eram solteiros, moravam sozinhos e talvez fossem de outra cidade. Acho que trabalhavam tanto que mal tinham tempo para viver. Moravam perto, ou talvez o trabalho dele fosse perto da casa dela, ou a casa dele perto do trabalho dela. O fato é que todo dia se encontravam sem se encontrar.

Eu confesso que já tinha deixado meio de lado esse projeto de ajudar os dois. Eu me sinto bem querendo ajudar alguém, mas a verdade é que eu tenho também a minha vida pra cuidar. Saí do trabalho, eram quatro da tarde e segui num engarrafamento sem sentido e chato, se chamava destino. Olhei para o lado direito da rua e o vi, caminhando com um envelope na mão e a bolsa do notebook pendurada nos ombros. Quase não pude acreditar quando do outro lado da rua, estava ela apressada com uma papelada na mão.

Ambos escutavam música em seus mp3. Imaginei que ouviam “To be Surprised” do Sondre Lerche. Ele entrou em um prédio e ela teve que esperar o sinal fechar para atravessar a rua, para a minha surpresa ou confirmação de qualquer coisa, ela entrou no prédio. Eram vizinhos! Será que se conheciam? O fato é que eles tinham muito mais do que o cep em comum. Mal sabia eu que eles moravam um de frente pro outro. Que ele adorava o perfume(dela) que ficava no corredor quando saía pra cafeteria todo dia. Que ela gostava da música do vizinho um pouco mais alta toda segunda de noite, quando a maioria dos vizinhos acabava interfonando pra reclamar. E muitas outras coisas que ninguém sabe direito o que sente, porque sente, nem como sente. É o tipo de coisa que só se sente.

Eu, de algum jeito, sabia que a rotina dos dois era idêntica sem ser compartilhada. Conseguia perfeitamente ver os dois juntos no futuro, eles se mudariam para o apartamento dela, que era mais limpo. Alugariam o dele. Em dois anos chegaria o primeiro filho, isso depois de muitas viagens, cafés da manhã, e muitas outras coisas juntos. Era sábado, um sábado insuportavelmente chato, resolvi que hoje faria alguma coisa por eles já que o roteirista da minha vida tinha tirado férias. Sentei num banco em frente ao prédio deles, não demorou muito para que ele saísse – hoje com uma roupinha casual, camiseta preta, bermuda e tênis.

Eu o segui. Eu sei, é feio, mas me senti bem fazendo isso e fui. Ele entrou em uma loja de CD’s e coisas do gênero. Eu fiz de conta que estava escolhendo alguns CD’s para mim. Acredite se quiser, em menos de cinco minutos ela entrou na loja – de vestidinho azul, sapatilha e cabelo preso num rabo-de-cavalo. Resolvi como ajudaria eles. Tirei uma foto disfarçadamente dos dois, um de frente para o outro, separados apenas por uma prateleira. E fui satisfeita pra casa.

Domingo, não tive notícia de nenhum dos dois, talvez a noitada tenha sido boa demais, talvez não tenham dormido em casa, ou até quem sabe se conheceram num bar qualquer, ele propôs irem ao seu apartamento e sorriram ao descobrir que eram vizinhos? A dúvida me perseguiu até segunda de manhã. Pelo visto, nada tinha acontecido. Estavam os dois, um de costas pro outro, como sempre. Tirei outra foto.

Na volta do trabalho tirei uma foto dele, outra dela, cada um de um lado da rua. Depois tirei outra dele entrando no prédio e dela também. Revelei essas fotos, e separei primeiro as do sábado, uma cópia para cada um em envelopes brancos. Era terça-feira e eu me sentei em outro lugar, tinha chegado mais cedo e mandei o garçom entregar um envelope para cada. Para me deixar mais curiosa ainda, nenhum dos dois abriu o envelope de cara. Continuaram seus rituais matinais. Ao fim, ambos saíram abrindo os envelopes. Merda! Eu ia ter que ver a reação de algum dos dois apenas. Segui ele, pra ver qual seria a reação, para saber se ele iria atrás dela.

Fiquei feliz ao descobrir que mesmo saindo cada um por uma porta acabavam se encontrando na lateral do café para atravessar a rua. Um ao lado do outro, ambos analisando a foto. Foi a primeira vez que eu vi ele olhando ao seu redor. Ele não a notou, ela estava de cabeça baixa, observando a foto. Aproveitei e tirei uma foto meio distante. Comecei a pensar como faria para entregar as próximas fotos. Ao sair do trabalho, colei duas fotos (dos dois no café) na entrada do prédio e cuidei para que ninguém além deles as arrancasse. Percebi que ela estava observando muito, no caminho para casa, olhando para todos os lados. O mesmo acontecia com ele, talvez tenham ficado preocupado por conta das fotos.

Ele chegou antes, viu a foto, pegou uma e olhou ao redor. Nada. Ninguém, aliás, muitos alguém passavam, mas ele não a percebeu do outro lado da rua e entrou no prédio. Ela chegou, pegou a outra foto, e entrou rápido no prédio com uma cara de assustada. Esperei o outro dia e colei novamente na entrada do prédio uma foto de cada, ele de um lado da rua, ela do outro. E coloquei em dois envelopes as fotos deles entrando no prédio e recebendo o primeiro envelope. Voltei a sentar no meu lugar de espectadora.

Como todos os dias eles chegaram, sentaram, e começaram os rituais até o garçom chegar e entregar o novo envelope. Dessa vez, os dois abriram quase que imediatamente. Olharam as fotos e viraram, estavam de frente um pro outro, acho que pela primeira vez. Se olharam, ela ficou desconcertada ao perceber que era ele o homem das fotos e virou de costas de novo. Nesse instante, os dois olharam para mim, que agora me levantava da mesa com um sorriso no rosto.

E eu estava mesmo feliz, saí do café com a sensação de missão cumprida. Eu tinha conseguido fazer os dois se notarem. Se eles iam se conhecer, se apaixonar, ter alguma coisa mais pra frente, não cabia a mim saber ou decidir. Uma coisa eu aprendi: “A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro nessa vida”. Sempre achei uma injustiça os desencontros da vida, não consigo ver alguém cabuetando sua própria felicidade sem perceber e me manter alheia. Às vezes a gente só precisa de um empurrãozinho. No meio de tanto desencontro eu proporcionei um encontro. Ninguém passa pela nossa vida sem deixar nada, eu passei pela vida deles deixando qualquer coisa, uma sementinha qualquer. Fiz a minha parte.

04
maio
10

os 90% e os outros 10.

rachel

Com sutileza, com saudade, um reencontro. Para ele foi estranho revê-la depois de tantos desencontros, ora bolas, eles já não eram mais o que deveriam ser.

Uma ideia louca, ele não pensou duas vezes, ligou, e disse ‘desce, tou chegando por aí em 5 minutos’, escutou uma pausa do outro lado e um ‘ta bom’, e pronto, isso foi o suficiente. Acelerou o carro, cheio de ideias na cabeça, ideias nem boas nem ruins, ideias que não passavam de loucura, até certo modo.

Daniel sorriu quando passou pelo segundo semaforo amarelo pensando ‘nossa estou realmente apressado, ok vou diminuir, não posso dar tanta moral’ e foi indo mais devagar, não que ele estivesse menos ansioso.

Isabel se olhou no espelho rapidamente e deu de ombros se encaminhando pra porta da frente ‘não Isabel, você não vai se arrumar nem se perfumar pra ele’.

Acontece que nenhum dos dois queria dar o braço a torcer, estavam afastados, e nem sabiam o porque, ela tinha relatado isso em uma das noites anteriores, dizendo que ‘parece que você não faz mais questão de mim’, enquanto ele sempre mudava de assunto de uma forma tenaz.

Quando ele chegou na portaria, não precisou nem pedir para o porteiro chamá-la, já estava ali sorridente. Um abraço de mais de cinco segundos, onde o tempo parou, para os dois, e para o mundo. Troca de sorrisos, e comentários afiados.

-Sabe o que eu tava pensando esses dias? Uma viagem minha… – ela ergueu a sobrancelha como se pedisse para ele continuar – nossos nomes terminam com ‘el’, o meu começa com D, que é a terceira consoante do alfabeto, o teu com I, que é a terceira vogal, ambos tem seis letras…

-Que viagem doida hein?

-É eu sei, e ainda somos ambos de Escorpião, tu nascesse no dia 04 e eu dia 09, sendo que D é a 4ª letra do alfabeto e I é a 9ª… Sem contar os sobrenomes… Gosto dessas viagens, numerologia… É bizarro, mas é legal… – ele parou de falar olhou pra ela, e os dois cairam na gargalhada, era sempre assim.

Conversinhas bestas, relatos de casinhos ao acaso para provocar ciumes, e ele com sutileza, e grande destreza, aos poucos ia ganhando terreno, sem nem saber pra quê, só gostava de vê-la corada.

-Você confia em mim?

-Claro que confio.

E ela deixou ele beijar sua testa dizendo ‘beijo na testa quer dizer respeito’, deixou-o tocar seu nariz com os lábios enunciando ‘aqui quer dizer carinho’, em seguida nas bochechas ‘aqui é amizade’, uma pausa no queixo ‘aqui é que te quero’, e por ultimo parou seus lábios a poucos centimetros dos dela falando ‘e aqui é que te amo, mas não vou fazer isso’.

Os dois cairam na gargalhada, ela corada deu de ombros, e ele riu mais ainda.

-Como se eu fosse te beijar.

-Ah, mas tu ia. – ele falou com toda a certeza do mundo, como sempre fazia.

-Puft. Ia demais.

-É assim sempre, o homem tem que andar 90%, a mulher os outros 10.

-Como assim?

-‘Hitch, o conselheiro amoroso’ nunca assistiu?

-Assisti, faz um tempão! Não lembro de mais nada.

-Bem ele diz que o homem avança 90% e depois a mulher avança os outros 10, não é bem assim, antes que o homem chegue aos 90, a mulher ja começou a avançar os 10, porque ninguem espera um beijo parado não é?

-Hmm.

-Besta – e ele deu um peteleco na sua testa.

Mais um pouco de conversas de provocações e ciumes, e ele anunciou sua partida, nem deveria estar ali, estava no seu horário de almoço, e ia ter que comer um espetinho as pressas para que sua chefe não pedisse que ele fizesse hora extra.

-Antes disso, vem cá…

-Sai Dan! – ela tentou se desvencilhar dele, mas aos poucos deixava ele chegar mais perto. – você ta vendo que é você que tá avançando os 100% né?

-Eu não me importo com você… – e ele roubou uma mordida dos seus lábios, ela não reagiu, era a única forma de impedi-lo, ela já sabia disso, por experiencias anteriores. – tem certeza então? – ele disse sorrindo.

-Tenho – ela se levantou quando ele afrouxou o aperto – vem eu te levo lá na saída.

-Hmm – ele foi calado até que chegaram na escada entre o mezanino e a portaria, colocou dois dedos no abdomen dela, parando-a de frente pra ele, e a tomou nos braços.

-Daniel, não.

-Porque não?

-Nunca dá certo isso.

-Pra mim sempre dá certo. – e ele mordeu seus lábios, mordeu como só ele sabia fazer.

-Nããão… – ela ofegou em meio aos beijos dela, e não resistiu mais, deixou-o fazer o que queria, pois era o que ela tambem queria.

Os dois aprofundaram o beijo, e, de repente, pararam.

-Satisfeito?

-Muito. – ele sorriu e desceu as escadas calmamente.

-Não deviamos fazer isso…

-Mas nós fazemos, é o que somos. – ele pausou, deu um grande abraço nela, e sussurrou em seu ouvido – eu te amo.

-Tambem te amo – ela falou intensificando o abraço, e sem querer, acabou deixando-o ir.

Quando o porteiro abriu o portão pra ele sair, ela disse.

-Vai, e vê se coloca juízo na tua cabeça!

Ele pausou, olhou-a de lado de um sorriso e virou para frente falando, para que ela não visse o sorriso largo que se estendia em seu rosto.

-Ela já tem, quem não tem, é meu coração!

E levantou a mão num aceno de despedida, abrindo o carro com o alarme. Eles eram assim, nada muito simples, nem muito complicado, só se amavam, sem precisarem monopolizar um ao outro.

Pra quem nunca viu Hitch:

01
maio
10

Sobre o amor, e o casamento.

Hoje, pensando sobre o casamento entendi que a única forma de sustentação dele é o amor. Parace óbvio e pode parecer também que eu não tenho nenhum conhecimento de causa para falar sobre. Mas, me parece que falar sobre casamentos ou sobre qualquer coisa é possível se você for um bom observador, se você pesquisa sobre, ou se você consegue tirar lições com os erros das pessoas ao seu redor. Com toda certeza alguém que não passou pela situação nunca vai poder descrever tão bem quanto alguém que passou. Mas, de qualquer forma, aqui vai a minha tentativa (baseada única e exclusivamente em observação, análise, pesquisa e nas lições alheias).

O grande problema é que hoje as pessoas já casam pensando na possibilidade de separação. “Se não der certo, a gente separa” e pronto. Você pensa que os casamentos mais antigos duravam até a morte os separar por quê? Porque eles sim, sabiam lidar com as adversidades, sabiam ser companheiros e não abriram mão do amor no primeiro obstáculo. As pessoas cada vez mais buscando apenas o lado bom de se relacionar com alguém, não se dão conta de que não existe casamento perfeito. É impossível conviver com alguém, dividir seu mundo com outra pessoa, sem que existam atritos. Tem coisas em você que não agradam seu companheiro e vice-versa. Vocês não tiveram a mesma criação, à vocês não foram passados os mesmos princípios, talvez nem tenham a mesma religião… A tolerância é um ponto-chave, assim como o perdão. Saber relevar certas coisas se faz necessário em inúmeros momentos, mas isso não é de forma alguma um sacrifício, isso deve ser feito por sabedoria, por maturidade e por amor.

Não importa se o pretendente dela é rico, ou de família importante. O amor é o fundamental, o resto se conquista. Nós não temos como prever como vamos estar em 20 anos, se vamos perder tudo, se vamos enriquecer… o que se sabe é que se existir amor, vamos ter o suficiente. É como dizem por aí: “Você nunca vê os dias difíceis numa foto. Mas são eles que nos levam de uma foto feliz a outra”. Não importa o que dizem os casais sobre seus casamentos perfeitos construídos em pilastras de aparências, eles podem fazer a vida juntos parecer perfeita, mas ela não é. Os momentos difíceis trilham o caminho para outros momentos felizes, e a cada crise superada o amor se fortalece.

Entenda que vocês não tiveram filhos para transferirem o amor do seu parceiro para o seu filho. No seu coração cabem os dois amores, por maiores que sejam, eles coexistem. Tenha paixão, mas não deixe que ela te torne controlador ou possessivo. Lembre-se que você não pode cobrar do outro os seus sonhos não realizados, estar com ele foi uma escolha sua e de mais ninguém. Não é feio, errado ou sem graça andar de mãos dadas, dar um beijo de surpresa, ir ao cinema ou dar flores mesmo depois de 30 anos de casados.

Você talvez não possa prometer amar alguém até que a morte os separe. Até porque, não somos sempre os mesmos. Com o passar do tempo, mudamos, a cada crise aprendemos algo novo, adquirimos algo novo e a cada alegria também. Afinal, a vida é feita de aprendizados e quem não muda nunca, não evolui. Aprendamos então a amar os muitos “eus” que irão surgir durante o tempo que estão juntos. Quer duas coisas que têm o poder pra destruir um casamento? O tédio e a rotina. Não dê cabimento a rotina, nem se deixe cair no tédio e você já tem uma grande coisa. O casamento não é um “amor ligeiro”, não tem essa de “não dá certo? separa”! O casamento é algo maior, queira você ou não, ele deixa marcas.