12
fev
10

Não os leve a mal, é carnaval.

    – Você sente falta dele?
    – Não. (mentiu).
    – Sei.
    – O quê? Você pensa que me faria falta um completo imbecil como ele? Faça-me o favor! Além do quê, é carnaval! O que você achou que eu esperaria dele?
    – Eu sei disso, não quero forçar a barra, só sinto que você gosta dele, de verdade.
    – Se enganou.
    – Tudo bem, já que é assim, acho que não faz mal você saber que ele está aqui.
    – Onde?
    – Atrás do cara vestido de árabe, o pirata.
    – Já vi, vamos circular um pouco? Quero ver se encontro uns amigos…
    – Mas você não disse que não gosta dele?
    – Eu disse que não gosto, mas não disse que aprecio a companhia dele. Isso ainda me incomoda, digamos assim.
    – Ah, chama-se orgulho ferido.
    – Não, não é! Só acho desnecessário um encontro aqui, hoje. A verdade é que, depois de tanto tempo eu nem sei o que falar.

    Eu, observando a situação, podia claramente perceber o que acontecia. Não por conhecer os dois lados do romance, e os protagonistas, mas sim pelo fato de que sem se dar conta ambos deixavam tudo muito claro.

    Eu olhava para Clara e sua amiga, podia quase ouvir as palavras que as duas diziam, e cada frase que elaboravam. Frases da amiga tão cuidadosas, para evitar que Clara se magoasse ali, no meio de tanta gente, e o pior, gente conhecida. E as frases de Clara tão jogadas, tão forçadas, colocadas ali como armadura. A possibilidade de suas frases serem verdadeiras era quase a de ganhar na Mega-Sena.

    Clara, por muitas vezes me ligou de madrugada -em algumas dessas bêbada-, choramingando, esculhambando até a última geração de João. Me contava mágoas, cachorradas dele, planejava vingança, dizia odiá-lo e me perguntava se perdoava ou não dessa vez. Já João, negava tudo. Só dizia algo quando eu perguntava qualquer coisa. Minha pergunta era motivo de muitos resmungos e horas falando de Clara, de como ele não se importava realmente com ela.

    Muitos meses tiveram que passar, para que João começasse a falar pra mim de Clara de outro modo, diria até da maneira que namorados costumam falar de suas namoradas. Agora era ele que vinha me falar dela, sem que eu perguntasse qualquer coisa. Se por algum motivo o relacionamento aberto deles fazia João se magoar, ele vinha esbravejar xingamentos, dizer o quanto ela não valia a pena.

    Certo dia Clara me ligou, como costumava fazer, às 4h da madrugada. Perguntei o que ele tinha feito dessa vez, ela me contou mais uma cachorrada. Eu ainda meio sonolento, mas revoltado, apoiei ela e disse que era hora dela dar um ponto final nisso, que não ia dar certo desse jeito. E foi assim que acabou: João como sempre, muito orgulhoso não foi atrás e Clara desistiu -aparentemente- de João.

    Ambos -secretamente- evitavam ao máximo lugares em que pudessem se encontrar. Mas quando acontecia, um dos dois vinha comentar algo sobre o outro comigo, e eu sempre dizia: “já conversamos demais sobre isso”. E quando eu menos esperava, os dois estavam em cantos das mesas, cantos de lugares, com algum amigo ou amiga, provavelmente falando um do outro. E em todas as vezes, eu me flagro parado, observando a cena e tentando imaginar o que dizem.

    Olhei para João que estava com um amigo pateticamente vestido de árabe. Ele falava perto do amigo, em tom baixo, com certeza por medo de que alguém escutasse que ele estava falando de Clara (como se no meio de toda aquela confusão alguém pudesse escutar algo que não fosse gritado).

    – Ela tá linda.
    – Quem?
    – Clara! Ela tá ali de palhacinha, com aquela amiga, como é mesmo o nome dela…?
    – Joana! Ah, já vi… E não tá tudo isso, já foi mais bonita, na época em que esteve comigo principalmente.
    – Ah, lá vem você com isso! Você sabe que ela é linda, tanto é que quis ela pra você. E digo mais, se você não pegar, pego eu!
    – Mulher é o que não falta aqui hoje, aliás, nunca faltou pra mim.

    Eu observava os olhares que discretamente um lançava ao outro, e o desconforto que um encontro de olhares causava nos dois. Em um dado momento, Clara fez que ia entrar no meio do povo, mas a amiga a deteve. Ficaram ali mesmo, paradas e conversando. Olhei pra João que se distanciou dos amigos pra comprar mais uma cerveja.

    Procurei Clara e a amiga, mas nenhum sinal delas, desapareceram no meio da multidão. Resolvi que era a hora de passar da água pra cerveja. Foi nesse momento que me dei conta que o povo tinha me arrastado junto para algum lugar um pouco distante do que eu estava inicialmente, agora teria que andar um pouco até chegar na barraquinha e comprar minha cerveja.

    Fui no sentido contrário ao do povo com uma certa dificuldade, mas agora já tinha localizado Clara, a amiga, e agora pude perceber a presença de um cara, que era qualquer coisa da amiga de Clara, pelo que pude notar.

    Enquanto observava Clara novamente, João chegou e me puxou para um aperto de mão seguido de um abraço embriagado. Conversamos um pouco, João pra variar falou de Clara qualquer coisa que eu nem quis ouvir e seguiu em busca de outros amigos. Percebi que Clara estava um pouco irritada com a amiga.

    – Se você não quer vir comigo procurar meus amigos, eu vou só! Pode ficar aí com o Pedro, por mim, tudo bem… Tudo bem mesmo.
    – Mas, Clara…

    Alguém derramou uma porção considerável de Vodka e qualquer coisa cor-de-rosa na na fantasia de Clara. E ela que morava logo ali, pegou uma fantasia antiga de sua mãe, a fantasia que a mãe usava quando conheceu o pai, Colombina.

    Clara meia hora depois surge andando no meio do povo. Eis que um bloco vem se aproximando. Procurei João com os olhos, encontrei rapidamente a pena do chapéu de pirata dele. Cada um de um lado da rua. João um bocado na frente do bloco, em busca dos amigos. E Clara procurando outros amigos, como desculpa para fugir de João.

    Passavam bailarinas, borboletas, super-homens, os mais variados heróis e vilões, princesas da disney, palhaços, palhaças, mímicos, pierrots, arlequins e colombinas. Nada de Clara encontrar seus amigos, e era tão simples, o grupo de palhaços… Estava mais perto do que ela imaginava, mas ela ia no sentido contrário deles. Eu tinha uma visão privilegiada, estava na calçada, um degrau acima, assistindo de camarote.

    Os dois indo para o mesmo ponto, e eles nem sabiam até os olhares se encontrarem. E agora eu observava o improvável, nesse relacionamento que pra mim sempre foi tão clichê. Após o encontro de olhares, para a minha surpresa, ambos começam a andar um na direção do outro, com olhares faiscantes ao mesmo tempo em que o bloco se aproxima animadíssimo.

    No meio do caminho, um grupo muito feliz, espalhava maquiagem pelos rostos. Seguraram João, enquanto um deles o analisou e disse: “você hoje, meu amigo, vai ser o pierrot”! Pintaram seu rosto de branco, e fizeram uma lágrima repousar em uma bochecha.

    Se encontraram. Clara gesticulava freneticamente como se quisesse colocar pra fora tudo que estava entalado até agora ao mesmo tempo. João a escutava, como se aceitasse que o que ela dizia fazia sentido e fazia pequenas intervenções, com as mãos juntas ao peito, dedos colados, explicava pacientemente algo.

    O bloco se aproximava e Clara parecia a cada segundo mais irada. Estava usando todo o seu arsenal de palavras brutas, cortantes e ofensivas. E nesse momento, João perdia a paciência, a marchinha carnavalesca se aproximando acelerava os corações, acelerava em qualquer sentido que fosse. João começou a gritar também, e gesticular de maneira mais violenta com a menina que agora, caía calada, num choro copioso. O bloco os alcança.

    As tubas despontam douradas, estridentes e felizes, exaltando toda a alegria carnavalesca. As tubas, com seus tons graves, marcavam o compasso da melodia junto com os bumbos. Bumbos que diferente das tubas, eram nervosos, sincronizados com os corações dos foliões. E no meio da confusão, vai e vem de personagens, eles se olham de maneira intensa.

    Permaneceram se olhando até que uma menininha vestida de branca de neve, de olhinhos inocentes, e batom vermelho, arremessa Clara pra cima de João, que também estava sendo empurrado pelo povo. Os dois quietos, espremidos, tremendo de raiva, era o silêncio mais barulhento que já presenciei. E o nó na garganta acabou por se desfazer quando os dois tomaram a decisão mais importante de suas vidas, ao mesmo tempo, sincronizados pelos bumbos talvez.

    Os dois desviaram suas cabeças -ainda de corpos espremidos-, visando acessar o ouvido um do outro. Até que conseguiram dizer instantânea e simultaneamente:

    – Gosto de você!

    Os dois, surpresos, tão surpresos quanto eu ao ver aquela cena, afastaram as cabeças e voltaram a se olhar. Um olhar que eu, de longe, sei qual era. E agora só o que me vinha na cabeça é que não tem carnaval que proíba um amor de acontecer. Como tudo na natureza, sentimentos não são inventados, impostos ou extintos, eles simplesmente se transformam.

    O bloco seguia, arrastando o povo, reconciliando pessoas, formando novos casais e provocando reencontros. O pierrot e a colombina permaneciam ali, espremidos um contra o outro. Percebi que já estava amanhecendo e agora eu dava as costas para a cena. Eu já tinha visto o suficiente pra saber o que aconteceria com os dois.


2 Responses to “Não os leve a mal, é carnaval.”


  1. 12 de fevereiro de 2010 às 2:15 PM

    HISHIUHSUHUISIUSHIUSHIUHSIUHSIUHIUSHIUSHIUSHHIUSHUI,
    acho que a musica certa seria ‘nao precisa mudar… vou me adaptar ao seu jeito’
    essas coisas ai,
    mas como tu disse o texto ficou maravilhoso,
    clichêzao a parte do pierrot e colombina, mas o clichê sempre deixa o romance mais apetitoso. hehe


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