Arquivo para fevereiro \23\UTC 2010

23
fev
10

Sem porque, sem pra que.

amornaotiraferias

-Va diga!

Ta, ta, eu não queria dizer isso, eu odeio dizer isso, você sabe disso, meu orgulho é assim, não deixa isso sair…

-Mas…
-Diga!

Droga, não faz essa cara, não essa, eu lamento, mas poxa eu tenho esse argumento, que querendo ou não pode me tornar inocente…

-Mas mô, tipo eu…
-Vai dizer não?!?

Ok, estou vencido.

-Estou errado.
-AHHHHHH! UHU! Admitiu!

Idiota, tabacuda, argh!

-Eu te odeio sabia? Porque tu não pode simplesmente admitir teu erro?

Porque admitir o erro é se sujeitar a uma condenação, coisa que me treinei pra não deixar acontecer, ora bolas!

-Porque… É…
-Idiota, eu te odeio por isso sabia?
-Tas vendo como tu é né? Eu digo o que tu quer, e mesmo assim, tu fica me tratando mal…
-Ta bom

E ainda fica com cara feia… Mas esse sorriso de vitória, tenho que confessar que é muito lindo.

-Ta olhando o que?
-Posso olhar não?
-Não é meu!
-É?

É muito linda mesmo… Sou muito sortudo.

-É!
-Não é meu.

Adoro roubar beijos!

-Eu deixei?
-E tem que deixar? Sou teu namorado.
-Idiota

Amo quando você me rouba um beijo! Sem porque, sem pra que… Amo você.

-Idiota…
-Eu te amo.
-Eu já sei.

Orgulhosa dos infernos!

17
fev
10

“Prenez soin de Vous” – Cuide de você.

 

Date: Tue, 26 Jan 2010 02:32:42 +0000
To: “Sophie”<sophiefulana@hotmail.com>
From: “Amor” <lucasfulano@hotmail.com>
Subject: Carta.

Não entendo o que aconteceu. Tinha colocado na minha cabeça não ir mais atrás devido à maneira como você decretou o fim, mas minha curiosidade foi maior. O que houve? Você passou a não atender minhas ligações, não responder minhas mensagens, e eu nem te vejo mais no MSN, por acaso me excluiu? Por quais motivos resolveu me ignorar? Não entendo mesmo, desde o início você sabia como iria ser. E esse meu discurso já tá ficando cansativo, eu concordo.

Resolvi então não falar de tudo que foi, nem de como foi. Resolvi não falar dos erros, dos problemas, das falhas da minha personalidade ou da sua, muito menos de como foi insensível a maneira como você resolveu terminar. Hoje vou falar de tudo que podia ter sido e não foi. Mas que talvez ainda possa ser.

Talvez esse email devesse ser escrito num dialeto só nosso. Escrito com nossos sons ecoando por aí, nossos beijos, apertos, e músicas. Coisas que só a gente entenderia. Imagino que não entendam que nós dois somos uma palavra. Estamos situados entre dois espaços em branco, ou entre espaço em branco e sinal de pontuação. Não temos apenas um sentido, nós somos vários significados. Fazemos sentidos em contextos.

Hoje quando abri minha carteira, caiu dela um papelzinho com o desenho que você fez, nós dois de mãos dadas em bonecos de palitinho coloridos. Nem lembrava que ainda tinha esse papel guardado, mas não pude deixar de lembrar o quanto era bom estar com você. Você realmente consegue me fazer bem, um bem que eu nunca imaginei que alguém pudesse carregar e transmitir. Tem a força para eliminar todas as coisas negativas que o dia a dia pode me empurrar goela abaixo. “You make it easier when life gets hard”.

Imaginei que pudéssemos ficar juntos por muito tempo, mantendo a energia boa que emanávamos ao lado um do outro. Até você não querer mais. Lembra que a ideia era ficarmos juntos até um não querer mais? Aceitei que você vez a sua escolha, mas gostaria de saber os motivos.

Queria que você repensasse sua decisão. Não gosta também de estar comigo? Isso é o que importa, bons momentos. É disso que uma vida feliz é feita, dos bons momentos… Afinal, ninguém é feliz todo tempo. É assim que considero que os relacionamentos felizes são: traduzidos em bons momentos.

Entendo que em alguns momentos não agi como gostaria que fosse, mas é assim que acontecem as coisas. Somos seres humanos diferentes e nem sempre aquilo que a gente espera do outro é o que ele realmente quer fazer naquele momento. Quero que entenda que não é proposital.

Embora eu fosse mais velho que você, contigo aprendi tanta coisa, Sô. Me ensinou coisas sobre os sentimentos, mostrou coisas sobre mim que eu nem conhecia. Você é capaz de lembrar o quanto nos divertíamos juntos? Lembra de como você cabe direitinho nos meus braços? Lembra também de como as horas passavam correndo quando estávamos juntos?

Não queria que terminasse assim, você me faz tão bem. Sinto sua falta. Podemos conversar qualquer dia desses?

Obs: vai em anexo a nossa foto que eu mais gosto!
Um beijo, Lucas.

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Date: Tue, 27 Jan 2010 22:55:38 +0000
To: “Amor” <lucasfulano@hotmail.com>
From: “Sophie”<sophiefulana@hotmail.com>
Subject: RE: Carta.

Eu tinha me prometido nunca escrever nada pra você. Mas, nesse caso, se tornou necessária uma resposta. Não é que eu deva satisfações ou que falar algo seja necessário depois de tudo. Não é que eu acredite que algo do que eu diga aqui vai mudar alguma coisa na sua maneira de pensar ou de ver a vida e o amor. É só que eu sou assim, acabo agindo com o impulso da emoção. Vou novamente contra todas as pessoas que me disseram para não responder o email.

Querido, a vida é um eco, nunca esqueça disso. Tudo que você emite, volta pra você com a mesma intensidade. Nossa vida é só um reflexo das nossas ações. Se você quer mais amor, dê mais amor. Se você quer mais compreensão, seja mais compreensivo. Se você quer alcançar o coração de alguém, deixe que alcancem o seu também. Se você quer ser respeitado, respeite. A vida não é uma coincidência, ela é apenas uma consequência de você e dos seus atos.

Nós podemos ter muitos personagens, você desperta de mim apenas o que quer ou o que merece. Um dia posso ser uma e no outro, outra completamente diferente. Eu sempre me achei forte demais, dura na queda. Acabei descobrindo muito com você também, conheci um lado meu frágil que não esperava. Nunca esperei que cairia no clichê de gostar de você. E não foi por falta de aviso que entrei nessa, é verdade, eu sempre soube como seriam as coisas. Mas outra coisa que eu sempre soube muito bem é tirar meu time de campo quando as coisas estão ruins.

O problema é que nós, mulheres, gostamos de desafios. E a gente sempre acha que vai ser diferente dessa vez, que a gente pode ajudar a consertar o que tá errado em alguém. Eu quis desistir muitas vezes, mas nunca por medo de me apaixonar. Era uma questão de praticidade, não queria me apaixonar por alguém que também não queria. É como já falei antes, se você vê um obstáculo, a saída óbvia é desviar dele e não seguir cega e desembestada pra tropeçar.

E foi o que eu tentei fazer, desviar, antes que eu tropeçasse. Meus planos não deram muito certo, foi como se eu sentasse no chão e me recusasse a ver o obstáculo. Acabei me envolvendo aos poucos. E não há nada de errado nisso, depois de tanto tempo, qualquer pessoa que possui um coração começaria a se envolver. Hoje é como se tudo que eu disse tivesse se apagado, por ter perdido completamente o sentido, por falta de reciprocidade. E é como se tudo que você disse tenha ficado sem nexo por falta de verdade.

A partir do momento que começou a não me dar satisfações, que passou a sumir sem nada dizer, e passar tempos pelo mundo, eu comecei a agir exatamente como você. Sumi e não quis dizer pra onde, nem porque. Não foi de repente, de uma hora pra outra… Foi acontecendo até eu encher o saco e não querer mais. Não foi por birra, é só que eu não preciso mesmo dar satisfação alguma, não quero mais.

Eu sou uma pessoa especial e gosto de ser tratada como tal. Não admito ser tratada como mais uma, e é assim que sou tratada. Você nunca me disse nada além do que diz a todas as outras. E, tem um toque tão amador nisso tudo, já que eu sei disso porque conheço muitas das outras.

Sinceramente não entendo porque ainda insiste nisso. Se como eu, tem aos montes por aí, não é mesmo? O algo a mais em mim, está no meu coração, e só quem alcança ele pode conhecer meu algo a mais. O combinado era ficarmos juntos até o dia que não fosse mais bom para um dos dois. E pra mim já deu o que tinha que dar, já disse, não quero nem vou perder meu tempo com algo inútil. Pode até ser que você ainda tenha jeito, mas eu não vou pagar pra ver. Sinto muito, gostaria de ainda acreditar nisso e achar que um dia poderia dar em algo, mas do jeito que as coisas acontecem entre nós, nunca vai dar certo e eu mereço mais. Tente entender, espero que seja feliz de qualquer jeito que escolha ser, só não venha me pedir que te acompanhe nisso.

Eu lembro de tudo. Mas infelizmente não lembro apenas das coisas boas. Lembro principalmente de quando você passou a me evitar, começou a ficar chato e evitava passar uma parte seu tempo livre comigo. Lembro-me de como eu era apenas uma no meio de tantas, apenas com o bônus de te fazer sentir mais tranquilo, mais feliz. E talvez você nem entenda o que isso quer dizer. Talvez até perceba o que quer dizer, mas ignore o significado por medo. Medo de que no dia que você aceitar a verdade dos fatos, do quanto importo pra você, você perceba que não pode simplesmente correr.

Agora deixo um pedaço de uma música que gosto muito e faz muito sentido aqui:

“Seems like I’m best at leaving when leaving is not the best thing. You couldn’t help it if you needed more than I could give. That’s just the way it goes. I call you misplaced but never a waste of my time. Everybody’s gonna make mistakes, but you’ll never be one of mine. You couldn’t help it if you needed more than I could give. That’s just the way it goes now. Loved me fearless when you needed to. You would not rest till you came through. So god bless and thank you. There is no anger, it’s just you and I and the truth. You can try to make her but love will not be forced to bloom.
You couldn’t help it if you needed more than I could give. That’s just the way it goes. The only love worth fighting for is one that you can win and, that’s just the way it goes now. You would not break but you could bend. And for love’s sake you let love end, But I still swear that you were god sent. And you stood before me knowing that the wings I have you gave.And that’s just the way it goes now. And I barely have the breath to breathe much less to fly away. And that’s just the way it goes now. And a silence entered the room for a one last, ‘I’m gonna love you.’ So god bless and thank you.” Bittersweet – Sara Bareilles.

Cuide de você e seja feliz!
Sophie.

16
fev
10

férias ao coração, tempo bom de liberdade, pelo menos no carnaval!

chuvacarna

E tome alcool. Pra esquecer das aulas, pra esquecer do estágio, pra canalizar a coragem de ir pra conquista, pra sorrir mais fácil, pra não sentir a fadiga do corpo e principalmente pra não focalizar o rosto dela.

-Droga, carnaval é assim mesmo né?

Ele me perguntou enquanto subiamos a ladeira de Olinda.

-Assim como? – fingir não saber do que ele falava.
-Assim sabe… – e deu um longo gole naquele copo que era praticamente só vodka, pois o refrigerante tinha ficado lá em baixo.
-Não, não sei.
-Ela fica com fricote!!!
-Ah não – eu já recomecei a andar quando tive certeza que era a mesma ladainha.
-Mas pra que discutir se eu posso ou não vir pra Olinda?!?
-Não quero saber, não quero saber…
-A gente acabou há quase um mês, hoje é meu aniversário!
-Não Caio, é amanhã….
-Mas eu tou comemorando hoje.
-Eita, não é Jorge ali?

E consegui finalizar a conversa. O pior de fim de relacionamento é que nunca termina sabe? Um dos dois lados ainda fica remoendo o assunto, e nesse caso, era meu amigo Caio. Eu até conhecia a ex dele, linda por sinal, e uma grande amiga, mas eu preferia não encontrar com ela por agora… Ela até estava certa em relação ao fim do namoro, mas é só que… Não se comenta essas coisas sabe?

-Hoje eu vou ficar com vinte. Vamos Tôp?
-Naaah – eu tinha acabado de sentar na calçada – já estou feliz com minhas duas.
-És muito fraco.
-Maai – eu concordei e virei pra conversar com outro amigo. Não dava pra aturar Caio bebado e querendo ser o foda.

Sabe o que é ainda pior que o fim de namoro de amigos, quando você esta de carona com o ex insatisfeito, e vem alguém falar sobre isso quando estamos no meio de um engarrafamento horrivel.

-Você tem que superar, ela ta certa… Ela não quer mais nada!
-Como ela não quer mais nada, ela me ligou hoje!!!

Todos se espantaram.

-Olha ai

E Caio jogou o celular. Ninguem se atreveu a olhar.
O papo foi mudando de foco, e acabamos chegando no Recife Antigo, tava tudo muito bom, tudo muito feliz, começa a chuva… Realmente agora tava seboso o carnaval.

-PARABENS PORRA – todos gritamos em unissono pra Caio, o jogamos para o alto, fizemos ele virar três lapadas de cana… Mesma ladainha de sempre.
-Eu vou ficar! – disse ele mais que embreagado.
-Porra Caio, mas a gente ta no teu carro – reclamou Jorge.
-Que nada porra, é aniversario dele, tas mais que certo de ficar. – eu entrei na discussão.
-Eu vou ver Marisa Monte. – todos olhamos pra ele confusos. Ta certo que Caio até gostava de Marisa Monte, mas bebado do jeito que estava, era uma surpresa querer ver um show e não aloprar por aí.

Foi ai que eu a vi. Bem ali, há uns 20 metros de mão dada com outro. Mais tarde eu descobri ser um amigo dela, a ex de Caio bem ali…

Um povo passou entre nosso grupo e ela, e a perdemos de vista. Simples assim. Caio comprou uma flor, deu para uma mulher que nem conhecia, conquistou mais duas ou três, e só saiu de lá as 7h da manhã.

-TÔP É CARNAVAL!
-E TEU ANIVERSÁRIO PORRA!

Sabe o que mais adoro em Caio? Ele sabe que carnaval, é época pra novos amores, pra deixar os velhos guardados. Carnaval é época pra brincar, sem se estressar, é época de ser feliz. Com chuva, sem chuva, é sempre carnaval, e não há mal, quando é carnaval! E assim ele deu férias pro coração, sem dar nenhuma atenção, se deixou levar pela vontade… Ah tempo bom de liberdade!

12
fev
10

Não os leve a mal, é carnaval.

    – Você sente falta dele?
    – Não. (mentiu).
    – Sei.
    – O quê? Você pensa que me faria falta um completo imbecil como ele? Faça-me o favor! Além do quê, é carnaval! O que você achou que eu esperaria dele?
    – Eu sei disso, não quero forçar a barra, só sinto que você gosta dele, de verdade.
    – Se enganou.
    – Tudo bem, já que é assim, acho que não faz mal você saber que ele está aqui.
    – Onde?
    – Atrás do cara vestido de árabe, o pirata.
    – Já vi, vamos circular um pouco? Quero ver se encontro uns amigos…
    – Mas você não disse que não gosta dele?
    – Eu disse que não gosto, mas não disse que aprecio a companhia dele. Isso ainda me incomoda, digamos assim.
    – Ah, chama-se orgulho ferido.
    – Não, não é! Só acho desnecessário um encontro aqui, hoje. A verdade é que, depois de tanto tempo eu nem sei o que falar.

    Eu, observando a situação, podia claramente perceber o que acontecia. Não por conhecer os dois lados do romance, e os protagonistas, mas sim pelo fato de que sem se dar conta ambos deixavam tudo muito claro.

    Eu olhava para Clara e sua amiga, podia quase ouvir as palavras que as duas diziam, e cada frase que elaboravam. Frases da amiga tão cuidadosas, para evitar que Clara se magoasse ali, no meio de tanta gente, e o pior, gente conhecida. E as frases de Clara tão jogadas, tão forçadas, colocadas ali como armadura. A possibilidade de suas frases serem verdadeiras era quase a de ganhar na Mega-Sena.

    Clara, por muitas vezes me ligou de madrugada -em algumas dessas bêbada-, choramingando, esculhambando até a última geração de João. Me contava mágoas, cachorradas dele, planejava vingança, dizia odiá-lo e me perguntava se perdoava ou não dessa vez. Já João, negava tudo. Só dizia algo quando eu perguntava qualquer coisa. Minha pergunta era motivo de muitos resmungos e horas falando de Clara, de como ele não se importava realmente com ela.

    Muitos meses tiveram que passar, para que João começasse a falar pra mim de Clara de outro modo, diria até da maneira que namorados costumam falar de suas namoradas. Agora era ele que vinha me falar dela, sem que eu perguntasse qualquer coisa. Se por algum motivo o relacionamento aberto deles fazia João se magoar, ele vinha esbravejar xingamentos, dizer o quanto ela não valia a pena.

    Certo dia Clara me ligou, como costumava fazer, às 4h da madrugada. Perguntei o que ele tinha feito dessa vez, ela me contou mais uma cachorrada. Eu ainda meio sonolento, mas revoltado, apoiei ela e disse que era hora dela dar um ponto final nisso, que não ia dar certo desse jeito. E foi assim que acabou: João como sempre, muito orgulhoso não foi atrás e Clara desistiu -aparentemente- de João.

    Ambos -secretamente- evitavam ao máximo lugares em que pudessem se encontrar. Mas quando acontecia, um dos dois vinha comentar algo sobre o outro comigo, e eu sempre dizia: “já conversamos demais sobre isso”. E quando eu menos esperava, os dois estavam em cantos das mesas, cantos de lugares, com algum amigo ou amiga, provavelmente falando um do outro. E em todas as vezes, eu me flagro parado, observando a cena e tentando imaginar o que dizem.

    Olhei para João que estava com um amigo pateticamente vestido de árabe. Ele falava perto do amigo, em tom baixo, com certeza por medo de que alguém escutasse que ele estava falando de Clara (como se no meio de toda aquela confusão alguém pudesse escutar algo que não fosse gritado).

    – Ela tá linda.
    – Quem?
    – Clara! Ela tá ali de palhacinha, com aquela amiga, como é mesmo o nome dela…?
    – Joana! Ah, já vi… E não tá tudo isso, já foi mais bonita, na época em que esteve comigo principalmente.
    – Ah, lá vem você com isso! Você sabe que ela é linda, tanto é que quis ela pra você. E digo mais, se você não pegar, pego eu!
    – Mulher é o que não falta aqui hoje, aliás, nunca faltou pra mim.

    Eu observava os olhares que discretamente um lançava ao outro, e o desconforto que um encontro de olhares causava nos dois. Em um dado momento, Clara fez que ia entrar no meio do povo, mas a amiga a deteve. Ficaram ali mesmo, paradas e conversando. Olhei pra João que se distanciou dos amigos pra comprar mais uma cerveja.

    Procurei Clara e a amiga, mas nenhum sinal delas, desapareceram no meio da multidão. Resolvi que era a hora de passar da água pra cerveja. Foi nesse momento que me dei conta que o povo tinha me arrastado junto para algum lugar um pouco distante do que eu estava inicialmente, agora teria que andar um pouco até chegar na barraquinha e comprar minha cerveja.

    Fui no sentido contrário ao do povo com uma certa dificuldade, mas agora já tinha localizado Clara, a amiga, e agora pude perceber a presença de um cara, que era qualquer coisa da amiga de Clara, pelo que pude notar.

    Enquanto observava Clara novamente, João chegou e me puxou para um aperto de mão seguido de um abraço embriagado. Conversamos um pouco, João pra variar falou de Clara qualquer coisa que eu nem quis ouvir e seguiu em busca de outros amigos. Percebi que Clara estava um pouco irritada com a amiga.

    – Se você não quer vir comigo procurar meus amigos, eu vou só! Pode ficar aí com o Pedro, por mim, tudo bem… Tudo bem mesmo.
    – Mas, Clara…

    Alguém derramou uma porção considerável de Vodka e qualquer coisa cor-de-rosa na na fantasia de Clara. E ela que morava logo ali, pegou uma fantasia antiga de sua mãe, a fantasia que a mãe usava quando conheceu o pai, Colombina.

    Clara meia hora depois surge andando no meio do povo. Eis que um bloco vem se aproximando. Procurei João com os olhos, encontrei rapidamente a pena do chapéu de pirata dele. Cada um de um lado da rua. João um bocado na frente do bloco, em busca dos amigos. E Clara procurando outros amigos, como desculpa para fugir de João.

    Passavam bailarinas, borboletas, super-homens, os mais variados heróis e vilões, princesas da disney, palhaços, palhaças, mímicos, pierrots, arlequins e colombinas. Nada de Clara encontrar seus amigos, e era tão simples, o grupo de palhaços… Estava mais perto do que ela imaginava, mas ela ia no sentido contrário deles. Eu tinha uma visão privilegiada, estava na calçada, um degrau acima, assistindo de camarote.

    Os dois indo para o mesmo ponto, e eles nem sabiam até os olhares se encontrarem. E agora eu observava o improvável, nesse relacionamento que pra mim sempre foi tão clichê. Após o encontro de olhares, para a minha surpresa, ambos começam a andar um na direção do outro, com olhares faiscantes ao mesmo tempo em que o bloco se aproxima animadíssimo.

    No meio do caminho, um grupo muito feliz, espalhava maquiagem pelos rostos. Seguraram João, enquanto um deles o analisou e disse: “você hoje, meu amigo, vai ser o pierrot”! Pintaram seu rosto de branco, e fizeram uma lágrima repousar em uma bochecha.

    Se encontraram. Clara gesticulava freneticamente como se quisesse colocar pra fora tudo que estava entalado até agora ao mesmo tempo. João a escutava, como se aceitasse que o que ela dizia fazia sentido e fazia pequenas intervenções, com as mãos juntas ao peito, dedos colados, explicava pacientemente algo.

    O bloco se aproximava e Clara parecia a cada segundo mais irada. Estava usando todo o seu arsenal de palavras brutas, cortantes e ofensivas. E nesse momento, João perdia a paciência, a marchinha carnavalesca se aproximando acelerava os corações, acelerava em qualquer sentido que fosse. João começou a gritar também, e gesticular de maneira mais violenta com a menina que agora, caía calada, num choro copioso. O bloco os alcança.

    As tubas despontam douradas, estridentes e felizes, exaltando toda a alegria carnavalesca. As tubas, com seus tons graves, marcavam o compasso da melodia junto com os bumbos. Bumbos que diferente das tubas, eram nervosos, sincronizados com os corações dos foliões. E no meio da confusão, vai e vem de personagens, eles se olham de maneira intensa.

    Permaneceram se olhando até que uma menininha vestida de branca de neve, de olhinhos inocentes, e batom vermelho, arremessa Clara pra cima de João, que também estava sendo empurrado pelo povo. Os dois quietos, espremidos, tremendo de raiva, era o silêncio mais barulhento que já presenciei. E o nó na garganta acabou por se desfazer quando os dois tomaram a decisão mais importante de suas vidas, ao mesmo tempo, sincronizados pelos bumbos talvez.

    Os dois desviaram suas cabeças -ainda de corpos espremidos-, visando acessar o ouvido um do outro. Até que conseguiram dizer instantânea e simultaneamente:

    – Gosto de você!

    Os dois, surpresos, tão surpresos quanto eu ao ver aquela cena, afastaram as cabeças e voltaram a se olhar. Um olhar que eu, de longe, sei qual era. E agora só o que me vinha na cabeça é que não tem carnaval que proíba um amor de acontecer. Como tudo na natureza, sentimentos não são inventados, impostos ou extintos, eles simplesmente se transformam.

    O bloco seguia, arrastando o povo, reconciliando pessoas, formando novos casais e provocando reencontros. O pierrot e a colombina permaneciam ali, espremidos um contra o outro. Percebi que já estava amanhecendo e agora eu dava as costas para a cena. Eu já tinha visto o suficiente pra saber o que aconteceria com os dois.

10
fev
10

Não insista (insista).


Faça-me um favor, desista. Não insista. Não percebe? Eu já não te quero mais, abra os olhos e veja. Tudo aquilo ficou pra trás, bem pra trás e foi finalizado, bem finalizado com um ponto final. E todo o encanto foi quebrado, não temos mais nada a ver.

Não foi minha culpa, eu te disse, acabo magoando as pessoas. Também nem sei mesmo se errei, mas agora não teria nem pra quê se arrepender. E foi assim que aconteceu, quando te pedi pra ser só minha, você não quis. Lembra? Não tente mais me convencer, você deve saber que o erro foi nosso.

Faça-me um favor, desista. Não insista. Não percebe? Quero que você insista.

02
fev
10

excessão

shaio

Não sei se estou certa em fazer isso, mas vou ser impulsiva uma vez na vida, aproveitar o efeito da bebida, e me deixar levar pela vontade.

Enquanto meus dedos dedilham pelas cordas do violão, sinto a vergonha corar meu rosto, ainda bem que tomei aquela tequila com gosto, senão, acho que não suportaria todos os olhos voltados pra mim.

Não que eu seja tímida, você sabe que eu sou até meio extrovertida, é só que, quando eu era criança, e via o quanto minha mãe sofria por causa do amor, eu jurei a mim mesma e para os céus, que nunca cantaria sobre o amor, não sobre esse sentimento que parece ser tão bom, e sem as pessoas perceberem, despedaça seus corações. Não, eu sempre tive averssão ao amor, ele não devia existir, era algo banal, que as pessoas inventaram apenas para acreditar que o mundo tinha algo de bom.

Só que você apareceu na minha vida, uma existencia errante, um cafajeste romantico. Nunca foi o mais lindo, nem o mais inteligente, apenas o que tinha as melhores palavras, nos momentos mais oportunos. Eu te repeli, te empurrei, esnobei, e ainda continuaste aqui, por que?

Hoje eu vou cantar sobre o amor por isso, porque você é a única excessão. Você e seu jeito tão estranho, despertou algo em mim que eu sempre tive averssão!

Agora que sinto a expectativa crescer nas pessoas que observam eu terminar de afinar meu violão, também me dei conta, que talvez o amor nunca tenha me abandonado, bem no fundo da minha alma, ele sempre esteve lá, com medo, tendo esperança de que um dia eu te achasse? Peculiar… Talvez seja só o destino. O mais engraçado, é que eu fiz de tudo pra obliterá-lo, eu ergui minha cabeça, olhei pra frente, e me agarrei a solidão, não, eu nunca quis esse sentimento horrível que poderia me destruir da noite pro dia, sempre vi pessoas a minha volta venerarem o amor, sempre o achei o sentimento mais pifio que poderia existir. Eu tinha que achar um caminho em que o amor não fosse o centro das atenções, e eu encontrei, me distanciei dele, só que você apareceu, porque você sempre é a única excessão.

Sabe, eu deveria te odiar por isso, te odiar por ter destruido todos meus principios, meus gostos, meu jeito de viver, mas eu não consigo. Porque acho que te amo. E por isso estou te cantando uma música, talvez seja efeito da bebida, mas algo aqui dentro me diz que é o tão idolatrado amor.

Queria muito acreditar, que vai ser diferente, do amor que eu já vi acabar com as pessoas, mas eu sei que não vai ser, você vai me decepcionar, eu vou me fechar, machucada, chorar vários dias, e depois pensar ‘o amor é odiável’, é eu sei, sou uma garota deveras pessimista.

Você me jura que é excessão, como se soubesse o que estou pensando, talvez, só talvez, numa remota possibilidade, começo a acreditar, que o amor pode ser algo bom, que o amor pode trazer felicidade, e que você vai ver, é o meu “felizes para sempre”.