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out
09

Mário? Que mário?

Todo mundo quer sinceridade, mas nem todo mundo aguenta ouvir a verdade. A verdade pode ser a adequação entre aquilo que se dá na realidade e aquilo que se dá na mente. Pode ser a síntese do que é real ou possivelmente real dentro de um sistema de valores. Para Nietzsche, a verdade é um ponto de vista. Ela pode ser bonita em poemas, pode ser bonita em teorias, mas a verdade, pode doer ou nos constranger.

Provavelmente, o que vou contar aqui já te aconteceu e espero que as pessoas que esqueci o nome nunca leiam.

– Alice?
– Err… Oi!
– Lembra de mim?

Nesse momento eu já estava desesperada, rodando todos os arquivos da minha memória. Não lembrava dele. Queria um buraco no chão pra me enfiar. Corre Alice, corre, corre! Não há tempo para mais buscas incessantes na minha memória sobre a sua fisionomia, voz ou nome. Me restaram três opções: dizer que não lembrava da maneira mais delicada, mentir e fazer de conta que lembrava sim, ou enrolar de maneira perspicaz até ele dizer: “Fulano, de tal lugar…”.

Tudo isso em poucos segundos rodando na minha cabeça. Isso é pergunta que se faça? “Lembra de mim?” Não, eu não lembro e pra não o correr risco de ficar com cara de babaca, aqui vai um conselho, nunca pergunte isso! Como eu iria decidir qual das três posturas iria tomar?

Se eu dissesse que não lembrava, provavelmente iria magoar aquela criatura com os olhinhos brilhando na minha direção, esperando eu dizer: “Sim, como poderia esquecer de você, meu caro?”.
Me imaginei dizendo:

– Não, não me lembro não. De onde? Quem és tu, criatura do pântano? Desaparece da minha frente, agora! Não quero lembrar quem você é, não percebeu a situação constrangedora em que me colocou?

Se eu dissesse que sim (essa é a opção mais arriscada), corria o risco dele dizer: “É mesmo? Quem sou eu?”. Eu só não queria magoar ele, mas sempre que eu tento não magoar alguém, causo desastres gigantescos na minha vida! Não queria que o Fulano pensasse que era completamente insignificante pra mim ao ponto de nem ir para na minha memória. Bom, depois de falar que lembra, não tem como voltar atrás! “Alea jacta est!”. Novamente imaginei:

– Claro que eu leembro! Como poderia esquecer de você? Faz tempos que não nos vemos não é?
– É, você lembra? Quem sou eu?

Mas, aí, pensei na segunda opção, no caso dele ser uma pessoa simpática:

– Claro que eu leembro! Como poderia esquecer de você? Faz tempos que não nos vemos não é?
– Pois é, bastante tempo! Como vai a família?

Aí eu ganharia tempo entrando com uma conversinha fiada do tipo “e aí cara, como vai a vida?”, enquanto pesquisava novamente na minha memória. O desespero batendo, d”e onde diabos esse cara veio”??

Se eu utilizasse minha aptidão para enrolar, e ficasse meia hora no “você é o …”:

– Nossa, lembro! Você é o … o …

Eu contaria com a piedade do Fulano, esperando ele se identificar depois de ouvir tantos “o …”. Melhor não, pensei em culpar minha memória então, já que realmente ela é terrível mesmo. Pelo menos agora minha dificuldade em lembrar das coisas serviria de algo. Me flagrei imaginando de novo:

– Cara, minha memória é terrível… sabe?…

Eu contaria novamente com a piedade dele, nesse caso ele se sentiria mais importante do que no anterior… Já que o problema não era ele ser totalmente insignificante e sim a minha memória que é horrível.

Sou muito sincera na maioria das vezes, mas fiquei com medo de chatear ele e comecei a tentativa de uma enrolação leve:

– Ah, tudo bem? Quanto tempo…
– Tempo mesmo! Tudo bem e você? Como anda a vida?

Acabei com tudo isso e disse:

– Desculpa, vou ser sincera… Não tô lembrando mesmo de onde te conheço! Já pensei aqui, mas não consigo lembrar de jeito nenhum! Eu realmente não sou boa de memória, e esqueço nomes com uma facilidade que você não imagina.

Para o meu alívio, ele respondeu com um sorriso no rosto:

– Imaginei que você não fosse lembrar. Sou eu, o Pedro… Estudamos juntos até a Alfabetização, tenho muitas fotos com você, acabamos fazendo par sempre nas festinhas de São João do colégio.
– Ah, Pedro! Você mudou bastante… Fica difícil lembrar né? Tanto tempo depois…
– É, lembrei de você porque você continua igualzinha, o mesmo rosto… Você era meu amorzinho de colégio!

Eu ri, falamos da vida um pouco, contei o que estava fazendo no momento, ele também. Descobri que ele tinha se mudado para a casa do lado do meu prédio. Provavelmente outros encontros na padaria aconteceriam, então mandei um “até mais” e fui embora, com a consciência tranquila. Às vezes, a verdade dói. Mas, às vezes, ela é realmente a melhor saída.


10 Responses to “Mário? Que mário?”


  1. 15 de outubro de 2009 às 6:36 PM

    Dizem que podemos comparar a sociedade com um tecido, o “tecido social”.

    O que mantém as células do tecido do corpo humano agrupadas é uma substância chamada colágeno, se eu não me engano (terceiro ano, faz teeeempo).

    Dá pra dizer que a mentira é o colágeno do tecido social. Ô se dá…

  2. 2 arinamenezes
    15 de outubro de 2009 às 6:41 PM

    Eu não gostaria de ter passado por essa situação, porque além da memória ruim, meu senso de sensibilidade é terrível! Eu acabaria dizendo sem pensar: “não, não me lembro”, e o pobre coitado ficaria com os olhinhos tristes, e eu um segundo depois me tocaria e tentaria consertar… Que vontade de ter esse editor automático na minha mente também! A verdade pras pessoas ao meu redor é geralmente nua e crua.
    Beijinhos, Alice.

    http://www.thatslemon.wordpress.com

  3. 3 maribremecker
    15 de outubro de 2009 às 8:14 PM

    a sou totalmente a favor da sinceridade! Falaria que não lembrava mesmo e ainda perguntaria o nome…pô meu época de alfabetização..tá querendo demais neh?

    http://maribremecker.wordpress.com/

  4. 4 Nataly
    15 de outubro de 2009 às 9:46 PM

    Já passei por isso.. O meu problema é bem mais embaixo, eu lembro os nomes, só hão lembro as faces.. O que dá na mesma… hahaha… No meu caso, fui sincera também.. Pois “Ah desculpa não estou lembrando” não mata ninguém!!

    Beijos.. 😀

  5. 16 de outubro de 2009 às 5:25 AM

    Bem, como eu sou um lixo pra lembrar nomes, fisionomias, quando acontece dessas coisas, falo rapidinho: “é o seguinte, me perdoe, mas não me lembro de você – e de quase ninguém…”.

    Creio que é melhor do que tentar “um truque”.

    Muito bom post!

    Bj.

  6. 16 de outubro de 2009 às 6:09 PM

    a verdade é um bicho incoveniente, nao mais

  7. 7 Jp!
    17 de outubro de 2009 às 11:13 PM

    A verdade nua e crua…
    Não lembro nem o que comi ontem no almoço vou lembrar de quem estudei na alfabetização???
    😉

  8. 18 de outubro de 2009 às 1:33 AM

    Amei seu blog.. Muito bom mesmo!! Parabéns!

  9. 9 tatyseixas
    21 de outubro de 2009 às 12:30 AM

    Hahaha.. muito bom. É dificil existir alguém que nunca tenha passado por isso. O pior é quando a criatura já chega toda serelepe puxando assunto e perguntando sobre sua família, piriquito e papagaio. Daí não tem escapatória!

    Aliás, nessas horas é sempre bom ter uma amiga treinada do lado, daquelas que entendem você só no olhar e sabem quando te socorrer perguntando: ‘Desculpe, ela é muito mal educada, meu nome é fulana e o seu?!’.

    Um beijão venenoso pra você! http://destilandoveneno.wordpress.com

  10. 21 de outubro de 2009 às 5:01 PM

    Acho que temos que ser sinceros, mais acho que chegar dizendo que não conhece é muito deselegante…dá pra levar de um jeito sem deixar a pessoa triste…dá pra enrolar bem caso vc realmente não se lembre…é só falar de coisas como familia, trabalho etc…


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